Ep. 3- Vampiragem Cotidiana

Agora o Falatório virou novela, ficção? Não é isso não… Quero falar da vampiragem cotidiana. Essa que muita gente pratica na surdina. Presenciava muito na faculdade, onde dei aula por mais de 20 anos.
Roteiro muito conhecido: bom aluno, dedicado, estudioso e esforçado. Cumpridor de prazos, faz leitura dos textos indicados, etc. Boa pessoa, não briga, não reclama, não sabe dizer não. E…
Torna-se presa fácil de outro tipo de aluno: bom de papo, liso, enrolador, simpaticão, cumpre suas obrigações conforme consegue. Articula desculpas muito bem, enrola todo mundo.
Em pouco tempo de convivência o segundo aluno saca o primeiro. Tem antena ligada, observa com cuidado e logo acha o pescoço que vai atacar: o do bonzinho. Se aproxima, fica amigo, conta uma história, outra história e depois de algum tempo pede ajuda. Para por o nome no trabalho, emprestar o resumo, dar cola na prova, e assim vai…
O bonzinho só é bonzinho porque, além de ótimo aluno, não sabe dizer não. Com o tempo percebe que virou pescoço de vampiro. Sente-se sugado, explorado, acha o outro folgado, abusado, mas não diz não. Fica constrangido, sente-se humilhado, mas segue envergonhado. No máximo começa a dar desculpas para não emprestar material, não colocar o nome no trabalho.
O vampiro sabe intuitivamente que o constrangimento do outro está a seu favor. Às vezes recua um tempinho, mas em geral volta. É uma questão de tempo… É um exemplo para ilustrar o mesmo mecanismo em outras situações. No trabalho tem muito. O fulano chega mais tarde porque sabe que o colega chega cedo e o setor fica coberto. Se tiver que dar uma escapulida sabe que o mesmo colega estará lá.
O que fazer? Como deixar de ser pescoço? Não é fácil, simples e muito menos rápido. Use o seguinte raciocínio: Se me exploram eu me sinto mal duplamente: por não conseguir dizer não e por ser explorada. Se digo não pra exploração só fico mal por dizer não. É óbvio que o dono do pescoço morre para não desagradar, para continuar a ser o bonzinho, mas morre também mais um pouco a cada vampiragem.
Sabe o que vai acontecer quando começar a dizer não? Nada de mais. O vampiro vai aos poucos se afastando de você. Mas não pense que será fácil. Ele deve voltar, tentar de novo, uma, duas, várias vezes. Mantenha-se firme e forte. Continue dizendo não. No começo dói, é difícil, depois aprende e acostuma. Como quando a gente entra no cheque especial. Na primeira vez é um horror, depois a gente acostuma e a questão passa a ser o quanto a gente vai entrar nesse mês!
Em algumas tentativas você vai se sentir mais leve e livre. E verá que essa pessoa não faz grande falta no seu círculo de relações.
E você que presencia vampiros cotidianos, ajude o pescoço a livrar-se do vampiro. Encoraja–o a protestar, a dizer não!!
Um dia vi uma aluna de primeiro ano, carinha de anjo e fofíssima, emprestar o caderno para um aluno que pediu para ver a matéria da aula anterior, que havia faltado. Estavam bem na minha frente, eu quase começando a aula. Ela emprestou…
Quando viu, ele estava tirando foto das páginas. E aquela menina fofinha virou bicho. Olhou-o nos olhos e disse: “Ei, que é isso? Você não pediu pra tirar foto. Esses são meus resumos da matéria. Faz você os teus!” E puxou o caderno de volta. O rapaz com cara de coquinho, sem graça, encolheu-se na cadeira. Não sei por quanto tempo…
Se você tem uma história de vampiragem cotidiana, manda pra cá. Gostaria muito de ouvir.
Beijão!!

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