#FalatórioAoVivo – A busca ao corpo perfeito e suas consequências

A psicóloga Gisela participou da X Jornada Científica da Saúde, que faz parte da 43ª Semana de Psicologia – Unisantos 2016. O tema abordado foi:  “A busca ao corpo perfeito e suas consequências”.

O tema é controverso e permite abordagem de diferentes pontos de vista. Vou tratá-lo de duas perspectivas: da Psicologia Social e da Clínica.

A primeira pergunta é: existe tal coisa como um corpo perfeito? Quais seriam os critérios de perfeição? 
1.Saúde – funcionamento fisiológico dentro dos parâmetros de normalidade
2.Estética – proporções e simetrias
 
Se você der um google na expressão “corpo perfeito” virão sites relacionados a:
 
▪ nutrição- dietas, suplementos, segredos de alimentação para emagrecer; 
▪ atividade física – adequadas a cada parte do corpo para moldá-lo melhor; 
▪ vestuário – para valorizar ou aparentar um corpo perfeito. 
 
Temas mais ligados à saúde física e mental vêm depois. Ou seja, a referência estética predomina. E como se determina essa referência? Ela foi mudando ao longo da história da humanidade. A partir do meio do século XX até os dias de hoje os principais parâmetros são dados pelo cinema, pelas modelos dos desfiles de Paris, Nova York, Milão e Tóquio e pelas celebridades. Uma beleza que representa população de centros urbanos ocidentais, educada e culta. De outro modo, o padrão do belo é dado pela indústria da moda e da beleza – cosméticos, suplementos alimentares, etc.
 
Duas expressões são muito usadas, e eu gostaria de propor uma breve reflexão sobre eles: Ditadura da Beleza e Imposto pela Mídia. Elas se combinam na seguinte frase que virou chavão: A mídia impõe um padrão de beleza!
 
A imposição da mídia só seria possível numa ditadura, que é um sistema de governo caracterizado como autoritário, com supremacia do poder executivo e diminuição ou restrição dos direitos individuais, no qual há controle e censura da mídia de fato!!
 
Então, a mídia impõe ou reflete esse padrão, apresentado pela sociedade? Acho um tanto simplista essa colocação…. Acho mais lógico considerar que esses padrões estéticos nos são apresentados através dos filmes, da música, dos modelos, das celebridades que são notícia! E há uma enorme indústria que se sustenta através da busca pelo corpo perfeito e compra espaço na mídia para vender seus produtos! Vende-se um modelo de perfeição e uma infinidade de produtos para se chegar a ela!!
Quem é mais influenciado pelo padrão? Obviamente os adolescentes e jovens adultos. Por quê? Porque sua identidade ainda está incipiente, sendo construída e, portanto, há muita insegurança. Seguir um padrão de grupo social e de faixa etária sempre ajuda muito. O jovem se identifica com o grupo e se salva desses conflitos pessoais. O psicanalista David Levisky da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo faz uma apresentação bem sintética da adolescência:
 
Os adultos, tornam-se mais reflexivos, angustiados e desejantes, podem compreender que não precisam tanto de um modelo a seguir, que seu corpo é diferente, específico, com proporções que podem não se encaixar no que é mais usual. E aí a ditadura deixa de existir, vira uma democracia, um sistema no qual convivem diferenças, maiorias e minorias. Envelhecer, ou melhor, amadurecer não é apenas degradação, tem aspectos bons também. E aqui falo de amadurecimento, que é uma consequência natural do envelhecimento, mas que não acontece da mesma maneira em todas as pessoas. Há idosos imaturos, como todos sabem.
 
Essa democracia da moda inclui a democracia dos corpos, obviamente! E há algum tempo iniciou-se um debate sobre isso. As modelos plus size estão aí! Aliás, por que falamos plus size, por que usamos a expressão em inglês? Como seria a tradução? Modelo de tamanho grande? Acima do peso? É como se diz, hoje, sou portadora de transtorno bipolar, não mais tenho psicose maníaco depressiva!! A mudança da expressão é uma tentativa de evitar o estigma associado a obesidade. Como é o associado à psicose.
Quer alguns exemplos de como a coisa é mais democrática? Em Londres, desde 1 de julho passado é proibida a propaganda que mostre padrões pouco realistas de corpo no metrô. Qualquer anúncio que divulgue corpos perfeitos inacessíveis para a maior parte da população será removido. Porque não se pode deixar de ver um outdoor. É para evitar que os passageiros sintam vergonha. Houve um movimento de 70 mil pessoas que assinaram um abaixo assinado quando uma marca de suplementos alimentares exibiu uma modelo de biquíni com o texto: Você está com o corpo de praia pronto? Houve protesto no Hyde Park e tudo!
 
A Triumph, Dove, C&A, Du Loren, Levi´s, Nike, todas já usaram modelos fora da caixinha em seus anúncios. Veja abaixo:
 
Portanto, a ditadura não é tão ditadura assim. Mesmo na área de saúde, há uma polêmica nos EUA com um contraceptivo de emergência, aquele que se toma até 72 horas após a relação sexual desprotegida. O remédio chama-se Plan B, Plano B, um nome incrível para um remédio nem tão incrível assim, pois tem sua eficácia reduzida em mulheres com IMC acima de 25, e isso não é dito na bula. Pesquisas indicaram a redução da eficácia e causou grande polêmica. As pesquisas são realizadas em mulheres sem sobrepeso ou obesidade. Levantou-se uma questão de direitos iguais para todas as mulheres. A revista feminista BUST não perdoou! 
 
 
Outras vozes são cada vez mais ouvidas. O movimento feminista que foi retomado com vigor faz seu papel de espernear sobre qualquer forma de preconceito contra a mulher! O Coletivo NÂO ME KAHLO, tem um post em sua página sobre a vergonha que são os concursos de beleza, nos quais as mulheres emprestam sua beleza para representar um estado ou país. 
 
Até aqui vimos um lado da moeda, a influência social e cultural na busca ao corpo perfeito. Se a pressão da vida contemporânea pelo corpo perfeito é tão intensa e generalizada, por que algumas pessoas não se deixam envolver por ela? A psicologia individual oferece essa resposta. Vamos lá, tentar entender como se desenvolve a relação do indivíduo com seu corpo.
 
O corpo estabelece a fronteira entre o interno e o externo. O esquema corporal é a figura que se forma no interior do aparelho psíquico, relativo à forma e ao tamanho do seu próprio corpo, e os sentimentos derivados dessa impressão. A imagem inconsciente se estabelece ao longo da vida a partir das emoções e sensações precoces, desenvolvidas nas relações com os pais. Essa imagem é baseada no contato com o corpo do outro e passa necessariamente pela função alimentar.
Como receptor das excitações internas e externas, o ego as recebe através de toda a superfície corporal e permite a distinção entre dentro e fora, interior e exterior. Cabe ao ego administrar essas excitações.
 
O ego é, antes de tudo, corporal, a projeção de uma superfície. O corpo psicanalítico, portanto, é habitado pela pulsão, pela linguagem e é diferente do corpo biológico. 
 
O investimento da mãe no corpo do indivíduo garante tanto sua sobrevivência como sua constituição como sujeito desejante em seu próprio corpo. Para isso, é preciso que a mãe sinta prazer no contato com o corpo de seu bebê e que reconheça, com palavras, o prazer que o bebê experimenta. 
 
Se não houver o investimento libidinal dentro dessas premissas, a organização auto-erótica pode não acontecer. Vale ressaltar que não se trata de prazer no sentido adulto, mas de uma satisfação pelo contato.
 
O outro é parte fundamental na constituição do sujeito psíquico, é quem transforma o corpo biológico em erógeno e oferece condições para que o corpo seja habitado pela linguagem, pela simbolização. 
De forma resumida, a libidização do corpo percorre um caminho:
 
Satisfação das necessidades básicas → autoerotismo → narcisismo → relação objetal 
 
O desenvolvimento comprometido desse processo de libidinização, associado aos aspectos sociais, culturais e biológicos, resultam na incidência de transtornos alimentares como a bulimia, anorexia e binge eating; assim como os transtornos de imagem como vigorexia. Todos esses apresentam relação com a estética corporal. 
 
A psicanalista Marina Ramalho Miranda nos dá um panorama dos TAs na entrevista abaixo:
Os transtornos alimentares são patologias complexas, de difícil manejo clínico e exigem um tratamento interdisciplinar cuidadoso e paciente. Como psicóloga, considero os TAs das consequências mais trabalhosas e intricadas da busca pelo corpo perfeito.
 
Acho que essa tendência de democratização da estética corporal é extremamente saudável, e pode contribuir muito para que a liberdade prevaleça sobre a ditadura estética, favorecendo a criatividade e a diversidade.
 
REFERÊNCIAS BILIOGRÁFICAS:
 
FERNANDES, M. H. Transtornos alimentares. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2006. 
______. Corpo. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2003. 
LARA, B., RANGEL, B.;MOURA, P.;MALAQUIAS, T. #Meu Amigo Secreto – Feminismo
além das redes. Rio de Janeiro: Edições de Janeiro, 2016.
 
 
 

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