Ep. 42- Modernidade Líquida

Dicas para o politicamente incorreto: Ter paciência sólida para lidar com a “Modernidade Líquida” do sociólogo Zygmunt Bauman é o que Gisela aborda neste vídeo, ou melhor, desabafa…
Muito difícil a vida pra uma mulher da minha idade. Sim, tá difícil pra todo mundo, entendo, mas vou ser egoísta hoje e falar só do meu calo apertado. Seguinte: tudo que era não é mais. A tal da modernidade líquida do Bauman, que se caracteriza pela impermanência, fluidez, volatilidade das relações, o cacete a quatro. A gente tem que ser muito flexível e cuidadosa, vou dar exemplo:

Outro dia voltando pra casa sigo atrás de uma moto. O piloto era um cara gordinho, com os pneus laterais sobrando na camiseta regata curta e a bermuda baixa, mostrando o cofrinho peludo. Puta que pariu, ninguém merece. Uma cena esteticamente horrorosa, o diabo da moto soltando uma puta fumaça, eu vendo aquele traseiro medonho na minha frente. Muito trânsito, parei no farol. Não consegui sair de trás do desgraçado. Tentei abstrair e pensar em outra coisa. Obviamente xinguei um monte… tudo que falei aqui falei alto no carro. Vidro fechado, ar condicionado ligado. Graças à Deus estava sozinha!! Pude soltar o verbo!!!

Sim, porque se estivesse com minha filha ia ser muito censurada!! Não pode falar assim do gordinho, é preconceito!! Deixa ele mãe, coitado. Cada uma faz o que quer. Mas ele fazer o quer implica em eu ter que respirar o diabo da fumaça e ficar olhando a bunda peluda dele? Por que ele pode e eu não? Que merda!!!

Vou dar outro exemplo. Meus queridos ex-alunos que ouçam o lado da professora. Sei que quando se juntam pra fazer trabalho gastam quase todo o tempo falando mal dos professores. Descem a lenha e em 15 minutos juntam uns pedaços lá e entregam qualquer coisa. Agora o nosso lado. Eu dando aula, uns anos atrás. Uma hora e 40 de aula. Tempo líquido: uma hora e 15 se tanto. Se é a primeira aula os alunos atrasam pra chegar por causa do trânsito, da neblina, do despertador que não tocou, da mãe que não o acordou, acredite, já ouvi essa desculpa!! Se é a última, têm que sair antes do final por causa do fretado, do namorado, do jogo do Curintia, do trânsito, mesma lenga lenga. O curioso é que no dia da prova eles chegam na hora e querem ficar até o finalzinho do tempo…

Voltando, além dos problemas de horário, a concentração é dificílima. É injusto pra gente, professor, competir com o Google na mão, disponível pelo celulares. Mas eu tentava ser meio mico de circo, ser bem humorada, falava compulsivamente pra segurar a atenção dos alunos. Eis que uma aluna fofinha de outro curso bate na porta e pergunta: Professora, posso dar um recado? Minha vontade era: Não porra, não tá vendo que tô dando aula? Mas educadamente respondo: Agora não, você pode voltar no finalzinho do horário? Mas enquanto eu falava a fofínea entrou, pegou um pedaço de giz e começou a escrever na lousa. Eu parei a aula. Ela: Não professora, pode continuar… Eu: Eu espero, você acha que alguém vai prestar atenção em mim, com você escrevendo recado na lousa? Ela: Foi mal, professora! Mas continuou escrevendo. Eu putíssima!! Entendo que ela não foi lá pra me atrapalhar. Queria apenas resolver o problema dela. Aí a classe dispersou, e foram lá mais uns 15 minutos de esforço pra recuperar a atenção dos alunos…

Ai de mim se reclamo da aluna, se sou dura!! Temos que prestar uma enorme atenção no que falamos!! Qualquer adjetivo pode ser interpretado como discriminação! Perguntam: onde é o fim da fila? Respostas mais ou menos aceitáveis:

– Atrás da coroa de cabelo vermelho (Eu, né)

– Atrás pivete de boné azul

– Atrás do tiozão de cabelo branco (Meu marido)

Respostas inaceitáveis, condenáveis, horríveis:

– Atrás do gordinho de camisa laranja

– Atrás da perua de macacão de onça

– Atrás da coroa que tá dando em cima do garotão

Tem que pensar muuuuito antes de falar qualquer coisa… A modernidade líquida exige uma paciência sólida!! Tá osso…

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